O valor da notícia

30 abr

Quando me questionam se o jornalismo impresso vai acabar argumento que essa é uma previsão que passa por uma questão de ordem econômica.

A tônica é a seguinte. Se o rádio, que não morreu; a TV, que não morrerá; e a Internet, cada vez mais viva do que nunca, entregam, todos os dias, notícias gratuitamente, por que as pessoas vão continuar pagando pelo conteúdo impresso, seja nos jornais ou revistas?

O jornalismo impresso vai acabar? Quem vai ditar isso é o seu bolso.

Crowdsourcing no jornalismo moderno

15 set

Vivemos uma nova era na comunicação. As plataformas de mídias sociais modificaram a forma como as informações são tratadas tanto no ambiente online quanto off-line. Quando as mídias ainda não eram assim tão sociais, o emissor tinha como única alternativa apenas enviar a informação para seus receptores e estes, recebiam o conteúdo, de forma passiva, e o guardava embaixo do braço.

Mas aí, as mídias tornaram-se sociais e os receptores da informação ganharam poderosas ferramentas para não só devolver ao emissor suas percepções e opiniões, mas também para contribuir com novos conteúdos gerados a partir de suas opiniões.

Isso se chama colaboração. Ou, como os especialistas gostam de rotular, crowdsourcing.

Se há uma área que saiu beneficiada com essa nova forma de fazer comunicação foi o jornalismo. Nunca se fez tanto jornalismo de verdade como na era da colaboração. Os blogs, por exemplo, que muitos insistem em afirmar, de forma equivocada que estão à beira da morte, são, na verdade, o mais puro jornalismo como nunca antes havia sido feito.

Hoje o papel do leitor ou do internauta-leitor mudou completamente. Assim como também mudou completamente a forma como as mídias estão, ou pelo menos deveriam estar, apresentando a informação. Cada vez mais cabe aos jornais, que de uma vez por todas, não vão morrer, apresentar ao seu leitor informações que completem o noticiário factual; hoje dominado pelos portais de notícias na Internet.

O leitor, que não é bobo nem nada, não abandonará a mídia impressa. Se há uma nova era da comunicação em pauta, há também uma mudança na cultura e no comportamento do leitor, que passou a acompanhar os principais fatos do dia na tela do computador para mais tarde, em casa, buscar mais informações na TV, nas revistas semanais ou ainda nos  jornais do dia seguinte.

E se há um jornalismo colaborativo em que o leitor é o grande produtor de pautas, há também o reverso desse modelo, em que, os próprios veículos de comunicação passaram a colaborar uns com os outros na geração de conteúdo factual, just in time, como uma espécie de fermento para fazer o bolo do jornalismo interpretativo crescer.

E não há dúvida que a tecnologia é o grande facilitador desse processo de colaboração. Tá aí até hoje a Wikipedia, que nasceu a partir de uma ideia de processo colaborativo, amparada numa plataforma tecnológica que permite que qualquer pessoa, em qualquer região do planeta, possa dar a sua colaboração para enriquecer o conhecimento de forma gratuita.

Assim como o perfil “Ajude um Repórter” no Twitter, em que os seguidores colaboram com os jornalistas na busca de fonte para suas pautas. Sem falar no The Guardian, que quebrou a barreira do som e deixou para trás a postura rígida de um veículo britânico para abrir todos os canais possíveis de intervenção do leitor na geração de novas pautas.

No jornalismo, o processo colaborativo é uma via de mão única e sem volta. Muitos veículos ainda não acordaram para essa nova realidade e por que não dizer, para essa nova oportunidade. Continuam oferecendo ao leitor as ferramentas básicas para o recebimento de seu feedback. Em muitos casos, sequer enviam respostas aos que agora são os grandes contribuintes para direcionar a linha editorial.

É preciso inspirar o leitor a reagir e compartilhar o conteúdo difundido. Os veículos devem fazer com que o leitor identifique uma relação pessoal com a notícia, ou seja, temos de gerar uma conexão direta da história que está sendo contada com o público receptor. Não basta apenas retransmitir o link da notícia no Twitter ou no Facebook e esperar pelas curtições. O leitor quer mais do que isso e pode oferecer muito mais que um “joinha”.

E mais do que promover enquetes, abrir canais para sugestão de notícias e discussão de assuntos em áreas de relacionamento e compartilhar informações nas mídias sociais, os veículos precisam pensar no que antecede a composição da notícia.

E esse novo desafio, imposto pela nova era da comunicação, acaba de cair no colo do jornalista, o personagem principal de toda essa história, que será o único responsável capaz, daqui pra frente, de pensar, desenvolver, criar e promover a notícia como um link para a conexão com a vida pessoal do leitor.

E por falar com Crowdsourcing ou processo colaborativo, no próximo post vamos abordar o mesmo assunto, mas sob uma variável que está crescendo, sobretudo no jornalismo: o crowdfunding, ou seja, o financiamento colaborativo para o desenvolvimento de veículos de comunicação a partir da contribuição financeira daqueles que se mostram interessados pela linha editorial do produto.

Jornal não é Internet e Internet não é jornal; o dilema do Estadão

27 jun

Jornal não é Internet, Internet não é jornal. Jornal não pode querer competir com a Internet: não tem a instantaneidade, não tem o movimento, não tem a interatividade. Internet não pode querer competir com jornal: não tem como mergulhar fundo nos fatos, estudando-os, pesquisando, buscando origens e consequências. A Internet me diz que o tomate está caro; o jornal tem de me dizer por que o tomate está caro e quanto tempo levará para voltar ao preço normal.

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Alguém precisa contar essas coisas a O Estado de S.Paulo. Na tentativa de oferecer um produto de leitura rápida, que supõe adequada aos novos tempos e aos consumidores de informação que não têm paciência de acompanhar textos um pouco maiores, o essencial Estadão corre o risco de deixar de ser essencial. Essas reformas editoriais, ocorridas uma atrás da outra, são mais do mesmo: reduzir as despesas cortando pessoal, reduzindo qualidade, tentando oferecer ao leitor pagante muito menos do que a Internet oferece de graça – e bem mais cedo, e com vídeos, e com interatividade, e sem sujar suas mãos de tinta.

Sempre é bom lembrar do Dr. Julinho, um notável jornalista que levou o Estadão a ser o jornal mais importante do país. O Dr. Júlio de Mesquita Filho tinha posições extremamente claras e não negociáveis: seu jornal seria a voz de São Paulo, defenderia a livre iniciativa, seria católico, embora sem atacar as outras religiões, daria amplo espaço ao noticiário internacional, teria o texto mais próximo possível da norma culta do português. E foi assim que o jornal ganhou a cada dia mais influência.

Conta um de seus editorialistas, Miguel Urbano Rodrigues, um português comunista de ampla cultura e muita informação (que voltou a Portugal após a Revolução dos Cravos e continua até hoje envolvido em política, como um dos dirigentes do Partido Comunista Português) que, com frequência, o Dr. Julinho usava nos editoriais palavras pouco comuns. Quando Miguel Urbano sugeria a modificação de alguma dessas palavras, por considerá-la de difícil compreensão, o Dr. Julinho lhe perguntava se o termo constava no dicionário. Constava, claro; então, o leitor que não o conhecesse que fosse procurá-lo, pois isso contribuiria para ampliar seus conhecimentos.

Concessão zero: o jornal era o que era. E, veja só, era o que o leitor esperava que fosse. Quando a empresa quis um jornal mais moderno, abriu outro – e bota moderno nisso: foi oJornal da Tarde, moderníssimo, antenadíssimo, e com o padrão de qualidade da S/A O Estado de S. Paulo.

O destino do Jornal da Tarde . a propósito, teria tudo para indicar o bom caminho ao irmão mais velho. Ao esquecer a qualidade, ao tentar aumentar a circulação baixando seu preço e tentando atingir um público que não era o seu, o Jornal da Tarde sangrou até morrer. O Estadão tem de reagir, e logo. O remédio que vem tomando já mostrou que não funciona, e em vez de trocá-lo as doses vêm sendo aumentadas. Os concorrentes do jornal são poderosos: O Globo é apoiado por um império de rádio e TV, a Folha atua pesadamente na Internet com o UOL e tem também um jornal popular, o Agora, e o Estadão só tem, para enfrentá-los, a força da tradição e a densidade do conteúdo.

Se desistir do conteúdo, a tradição não será suficiente para mantê-lo entre os primeiros.

Trecho do artigo Nada do que foi será, de Carlos Brickmann, publicado no Observatório da Imprensa

O jornalismo transmídia em versão original

1 mar

O acompanhamento das transmissões da cerimônia do Oscar 2013 pelas redes sociais foi quase tão glamoroso quanto o evento em si. Certamente, foi bem mais divertido. Nos Estados Unidos, foram 8,9 milhões de tweetsdurante o evento. Muito se tem falado sobre jornalismo transmídia, enquanto novo desafio na arte de contar histórias reais. Seria uma adequação da tática de utilizar estrategicamente várias plataformas para narrar uma notícia de forma complementar, com engajamento dos chamados “prosumidores” (aqueles que não apenas consomem, mas também produzem informação).

Entre os teóricos, não existe ainda consenso sobre as possibilidades deste tipo de narrativa jornalística, já comuns nas franquias de Hollywood, como Harry PotterThe Matrix ou Star Wars. Os livros clássicos sobre o tema – Cultura da Convergência, de Henry Jenkins, por exemplo – também estão centrados nas obras ficcionais, mas, recentemente, o professor espanhol Carlos Scolari lançou Narrativas Transmídias: quando todos os meios contam, no qual dedica um capítulo ao jornalismo transmídia.

O próprio Jenkins, nas suas conversações online, considera o jornalismo transmídia como aquele caracterizado pelo aproveitamento da inteligência coletiva dos leitores. O fotojornalista Kevin Moloney, na sua tese de doutorado, adaptou as características da narrativa transmídia de Jenkins ao universo das notícias.

Características da cobertura

Assim, estaríamos lidando com uma notícia expansível, com características virais, espalhada espontaneamente pelos usuários em suas redes sociais, ampliando o alcance para além do veículo que a gerou. Esta notícia estaria também marcada pela possibilidade de exploração, por meio da qual é possível aprofundar-se no conteúdo, buscando complementá-lo nas redes sociais ou em outras plataformas como celular ou tablet.

A continuidade ou serialidade seria uma marca da suíte natural. Ainda que o fato em si se encerre, outras abordagens serão exploradas e o assunto continuará a gerar interesse nos dias que se seguem. Diversidade de pontos e vista e imersão também marcam a transmidialidade, significando a possibilidade de ouvir não apenas a opinião de experts, mas também de pessoas com idades e formações as mais diversas. Além disso, esta notícia levaria à ação, por exemplo, por meio da remixagem, reedição e recompartilhamento da informação original.

E não foram justamente estas as características da cobertura do Oscar na noite do dia 24 de fevereiro? A transmissão da cerimônia em vídeo, pela tela da TV, do computador, tablet ou celular, veio acompanhada por uma enxurrada de comentários, remixagens, compartilhamentos, gargalhadas virtuais, vídeos alternativos, coletâneas comentadas de fotos, links.

Jornalismo coletivo

A TV mostrou-se definitivamente social a ponto de alguém no Facebook comentar: como era possível a cobertura do Oscar sem as redes sociais?Um mix de vozes e telas marcou a noite até daqueles que não pretendiam acompanhar a cerimônia. E pautou também o dia seguinte das redações, com reportagens sobre a repercussão na web.

Agora mesmo, quando acesso no Twitter a hashtag #oscar2013, as atualizações continuam, alimentadas pelobuzz e compartilhamento natural. Está certo que nem todos os comentários fazem jus à inteligência coletiva à qual se referia Jenkins. Mas não deixam de ser a expressão de um jornalismo diferente, coletivo, plural e inesperado. O tal do jornalismo transmídia em sua versão mais original.

Lorena Tárcia,  jornalista, professora e doutoranda em comunicação, Belo Horizonte, MG

Fonte: Observatório da Imprensa

Inscreva-se no Curso Estado de Jornalismo Econômico

28 fev

A partir da próxima segunda-feira, dia 4, começam as inscrições para o Curso Estado de Jornalismo Econômico, que ocorrerá entre os meses de julho e agosto, em período integral.

Os participantes terão aulas teóricas com professores da FGV e realizarão atividades monitoradas pela equipe de jornalistas econômicos do Grupo Estado. Os focas também participam da rotina das redações, com atuação em diferentes plataformas.  O programa é válido como curso de extensão pela FGV.

Os participantes terão aulas de Reportagem econômica (impresso, online, rádio e TV); Agência de notícias; Infografia e fotografia; Jornalismo de Banco de Dados; Conteúdo completo de Economia; Ética Econômica e Língua Portuguesa.

Podem se inscrever  jornalistas formados até dois anos antes da realização do programa ou alunos do último semestre das escolas de jornalismo de todo o Brasil. Para ser aceito, o candidato aprovado tem de apresentar prova de conclusão do curso ou certificado de matrícula.

O novo jornalismo dos blogs

28 fev

Parece estória da carochinha! E tem virado moda. Um princípio básico do jornalismo, o simples ato de checar uma informação, tem sumido da prática jornalística. Diante dessa correria, da pressa em “dar primeiro”, ou simplesmente “dar”, muita gente tem bebido nessa fonte da imprecisão e dado “barrigadas”, seguidamente. A mais comum é a da morte de pessoas convalescentes, mas que ainda não morreram.

Isso tem ocorrido principalmente com “blogs de notícias”, essa interessante mídia social que, além de oferecer informação, muitas vezes recheada de releases de assessorias diversas, desde as oficiais, como governos e instituições públicas, às de shows de todos os tipos.

É comum também se ver “notícias” um tanto fora do comum, como as de sumiço de cachorrinhos e outros “fatos”. A maioria desses “noticiosos” tem o slogan da “credibilidade”, “imparcialidade” e outras virtudes do bom jornalismo.

Creio que em tempos de Facebook, Twitter e outras plataformas de comunicação, não é mais preciso a correria pelo “furo”. A imprensa deveria se comportar de outro modo. Ela deveria primar pela exatidão, como deve ser, sempre. Ter uma informação checada, com uma notícia mais apurada e não competir com os 140 caracteres do Twitter, com pouco conteúdo, e em alguns casos duvidoso.

É comum observar nas redes sociais na internet informações propagadas como a verdade, como os textos de Caio Fernando Abreu, Luis Fernando Veríssimo, Arnaldo Jabor. Numa simples checagem no doctor Google se descobre que muitos daqueles escritos não lhes pertencem. No entanto, há de se considerar que as pessoas que compartilham isso muitas delas não são jornalistas, portanto não têm o compromisso assumido em lidar com a verdade, princípio básico para a credibilidade.

Pouca informação, muitos julgamentos – Outro ponto sobre a checagem de informações é que há poucos jornalistas que ainda desconfiam das coisas. Acreditam em sindicatos, ou sindicalistas, secretários de governo, chefes de governos. As fontes oficiais nunca foram tão críveis. O sindicalista diz que o seu salário atrasou, o blogueiro vai lá e noticia. Não tem a mínima curiosidade em pedir o extrato bancário, contracheque. Outra “notícia”, muito comum em sites e periódicos de fofocas de celebridades, é “fulano está saindo com beltrana”. A notícia é dada sem imagem, nenhuma foto, baseada apenas em uma “amiga” da tal celebridade.

Os comentários dos blogs, muitas vezes, chamam mais atenção do que a própria “notícia”. Pela virulência do enunciado e a covardia do anonimato. Este ponto merece um texto exclusivo, mas não vou perder tempo para tal. Publicando esse artigo em algum blog, certamente serei alvo de algum famigerado ataque.

Outro mal-estar que acontece com o jornalismo é o fim do texto que o caracterizou como ciência, área do conhecimento: falta narrativa, impessoalidade, até mesmo a entrevista, atividade comum ao jornalismo. Todos querem, mesmo, é dar opinião. Informar, que é o mister do ofício, os profissionais estão esquecendo. E a população padece de informação, mas se assoberba de julgamentos.

Raphael Leal, jornalista e coordenador de comunicação da Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Juazeiro, BA 

Fonte: Observatório da Imprensa

Jornalismo na palma do celular

14 fev

Duas notícias me chamaram a atenção nesta curta semana pós carnaval. A primeira delas, revelou uma declaração um tanto quanto polêmica do editor do jornal Financial Times. Ele afirmou que não acredita mais no jornalismo impresso e assumiu que o futuro do jornalismo está no meio digital. Como resposta a sua previsão, lembrou que o periódico já mandou para a rua nada mais nada menos do que 30 profissionais. 

Crise? Não para o mercado brasileiro, ao menos. Por aqui, o IVC divulgou que cresceu o número da circulação de jornais no país. Mas, prestem atenção, há um fator de muita esperteza nesse cálculo. Agora, o instituto responsável pela aferição da circulação dos jornais entende que, edições baixadas em dispositivos móveis ou mesmo nos desktops, também podem ser contabilizadas no quesito “circulação”. Ou seja, não basta ser de papel, mas no formato digital, o jornal também circula e conta como um exemplar a mais na mão do leitor. 

Outro dia ouvi que os jornais impressos morrerão quando as pessoas que ainda insistem em sujar as mãos de tinta para ler notícias também morrerem. Gracinhas à parte, se pensarmos bem, faz até um pouco de sentido. Mas, não quero acreditar que a questão de escolha entre o impresso ou digital se restringe apenas a opções de gerações diferentes. Por ora, ainda é um campo em que previsões são tão válidas quanto uma moeda de 2 reais. 

A outra reportagem que me chamou a atenção dizia respeito sobre a queda no número de vendas de aparelhos de telefonia celular. Desde 2009, não se registrava um desempenho negativo nessa área. A notícia, por si só, é bombástica, haja vista o número de celulares no Brasil, por exemplo, ser maior que o número da população segundo o IBGE. 

No entanto, a informação mais importante desta notícia não está no título. Quem lê a matéria até o fim (coisa rara hoje em dia) vai perceber que, apesar da queda na venda de celulares, o número de smartphones no mercado cresceu. Hoje temos em torno de 19% desses aparelhos inteligentes nas mãos do consumidor e ainda há um grande mercado a ser explorado. 

Talvez o futuro do jornalismo esteja sim no meio digtal, mas eu apostaria todas as minhas fichas em dizer que além de estar no meio digital, estará, cada vez mais, na palma do celular.